quinta-feira, 3 de março de 2011

Poesia "Cristais", de Ir. Cristina, fma

Prestigiem a nova poesia de Ir. Cristina intitulada "Cristais" em seu espaço nesse blog, que você visualiza à direita.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Quando olho em teus olhos




Quando olho em teus olhos
Teu olhar encontra o meu
É difícil entender que também por mim
Na cruz foi que morreu.

Carinho, compaixão, misericórdia
Ao auge elevou, e mesmo assim...
Violência: bofetões e cusparadas
Por fim, morte, o sistema te ofertou

Teu projeto de vida, de liberdade
Por vezes ainda é esquecido
Olhando em teus olhos
Percebo ainda que tens sofrido

Tens sofrido no povo que ainda sofre
Na luta pelo pão, pelo trabalho
Por terra, educação, liberdade
Por um digno salário.

Fico irritado, por vezes desesperado
Em cada pessoa que sofre, eu vejo
Tu sendo de novo crucificado
E meus braços ainda cruzados

Olhando em teus olhos, nesta cruz
Te suplico nesta oração
Arranca-me, bom Jesus,
De minha acomodação.

Tornai-me por tua graça, imploro
profeta de verdade, na verdade
com humildade agora oro
não esquecer a caridade.

Olhando agora em teus olhos
Meu coração palpita ainda mais forte
A esperança agora me anima:
A vida venceu a morte!

Dilvano, OSFS

Contemplação sobre o fim do dia


Finda mais um dia, Senhor
Eu contemplo a noite
A noite que já à porta bate
Depois do dia precursor


Tento decifrar, entender
Que sentimento é este
Que a noite me traz
Espero que disso eu seja capaz

Angústia com alegria
Um tanto de solidão
Me recolho então
Em profunda nostalgia

Penso Ti, luz sem fim
Eterna chama viçosa
Te trago dentro em mim
Meu ânimo Tu renovas

Mas gosto de pensar na noite
É bom pensar nas trevas
Para lembrar da claridade que és Tu
Claridade, repito, eterna

Oh noite! Com todo seu mistério!
Que na morte me faz pensar
Misteriosa é a morte, sem critérios
Que um dia vai me arrebatar

Finda o dia e chega a noite
Vontade de chorar
Parece um vazio em meu peito
As lágrimas vou derramar

Escorrem as lágrimas, muitas
A dor também vai saindo
Há quanto tempo não choro
Me torno, de novo, um menino

Agora já sinto bater mais leve
Meu fraco coração
Prossigo contemplando em prece
Te elevo minha oração

Te entrego, Senhor, meu dia
Te oferto meu sono
Confiante agora e assim tranqüilo
Em Ti, somente, me abandono.

Dilvano, OSFS

Andando e amando


Andando e amando...
Pois o andar sem amor é andar sem rumo
Amar sem andar não é de fato amar:
O amor nos faz andar.

Pois, amar é partir primeiro
ao encontro dos necessitados,
na busca do perdão que cura,
na escuta atenta e amorosa
na resposta de uma dúvida.

Para quem ama é dado caminhar
Sem perder a precisão
Pois quem com o amor anda
nunca erra a direção.


Amar é antecipar o céu
É para o céu andar
É elevar a mais bela prece
É com gratidão louvar.

Andar e amar talvez sejam
As duas partes da cruz
Por nós com ela Cristo andou
E por seu amor nos trouxe a luz.

A luz venceu as trevas
Saudemos a ressurreição
Andemos em direção a ela
Amando sem distinção.

Nosso glória é elevado
Àquele que andou primeiro
Ao nosso encontro com amor
Se tornando companheiro.

Dilvano, OSFS.

Amor amar


Amor amar
 
 
Quanto tempo se leva
Pra entender o amor e o amar
Agora divago, a pensar num instante
Como posso entender o amor
Sem pensar em Quem dele é a fonte?
 
A partir d'Ele, Autor-Amor,
Passo a compreender então
E o compromisso se desdobra
O amor é caridade, e esta é
O amor expresso em obra.
 
Dai-me fonte divina
Constância no amor e na lida
Inspira nossos poetas e poetisas
E que na poesia do amor, Tua presença
Faça rima em minha vida.
 
(Dilvano, OSFS)






Lamento por morte do escritor Moacyr Scliar

Manifesto, nesse que é um de meus espaços, minha tristeza e lamento pela morte do doutor e escritor Moacyr Scliar. Perdemos um de nossos grandes médicos e escritores.
Aos familiares, amigos e demais fieis leitores e leitoras de Scliar a minha solidariedade e especiais preces. Deus , pela intercessão de nossa querida mãe Maria, os console e que Moacyr goze da vida definitiva junto de Deus, ele que tantas vidas salvou neste mundo terreno.


Vida e obras:


Moacyr Jaime Scliar nasceu em 23 de março de 1937, em Porto Alegre - seus pais, José e Sara Scliar, de origem russa, chegaram ao Brasil em 1904. Scliar formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sendo especialista em Saúde Pública e Doutor em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Casou-se com Judith, com quem teve um filho, Roberto.

Autor de mais de 70 livros e eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2003, Scliar publicou sua primeira obra, Histórias de um Médico em Formação, em 1962. Recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira, sendo o último, o Jabuti, por Manual da Paixão Solitária, em 2009. Seus livros estão traduzidos em doze idiomas. Entre suas obras mais importantes estão O Ciclo das Águas, A Estranha Nação de Rafael Mendes, O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

NOTA DA CNBB SOBRE ÉTICA E PROGRAMAS DE TV

Têm chegado à CNBB diversos pedidos de uma manifestação a respeito do baixo nível moral que se verifica em alguns programas das emissoras de televisão, particularmente naqueles denominados Reality Shows, que têm o lucro como seu principal objetivo.
Nós, bispos do Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP), reunidos em Brasília, de 15 a 17 de fevereiro de 2011, compreendendo a gravidade do problema e em atenção a esses pedidos, acolhendo o clamor de pessoas, famílias e organizações, vimos nos manifestar a respeito.
Destacamos primeiramente o papel desempenhado pela TV em nosso País e os importantes serviços por ela prestados à Sociedade. Nesse sentido, muitos programas têm sido objeto de reconhecimento explícito por parte da Igreja com a concessão do Prêmio Clara de Assis para a Televisão, atribuído anualmente.
Lamentamos, entretanto, que esses serviços, prestados com apurada qualidade técnica e inegável valor cultural e moral, sejam ofuscados por alguns programas, entre os quais os chamados reality shows, que atentam contra a dignidade de pessoa humana, tanto de seus participantes, fascinados por um prêmio em dinheiro ou por fugaz celebridade, quanto do público receptor que é a família brasileira.
Cônscios de nossa missão e responsabilidade evangelizadoras, exortamos a todos no sentido de se buscar um esforço comum pela superação desse mal na sociedade, sempre no respeito à legítima liberdade de expressão, que não assegura a ninguém o direito de agressão impune aos valores morais que sustentam a Sociedade.
Dirigimo-nos, antes de tudo, às emissoras de televisão, sugerindo-lhes uma reflexão mais profunda sobre seu papel e seus limites, na vida social, tendo por parâmetro o sentido da concessão que lhes é dada pelo Estado.
Ao Ministério Público pedimos uma atenção mais acurada no acompanhamento e adequadas providências em relação à programação televisiva, identificando os evidentes malefícios que ela traz em desrespeito aos princípios basilares da Constituição Federal (Art. 1º, II e III).
Aos pais, mães e educadores, atentos a sua responsabilidade na formação moral dos filhos e alunos, sugerimos que busquem através do diálogo formar neles o senso crítico indispensável e capaz de protegê-los contra essa exploração abusiva e imoral.
Por fim, dirigimo-nos também aos anunciantes e agentes publicitários, alertando-os sobre o significado da associação de suas marcas a esse processo de degradação dos valores da sociedade.
Rogamos a Deus, pela intercessão de Nossa Senhora Aparecida, luz e proteção a todos os profissionais e empresários da comunicação, para que, usando esses maravilhosos meios, possamos juntos construir uma sociedade mais justa e humana.



Brasília, 17 de fevereiro de 2011.



Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana



Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB
Presidente da CNBB



Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB

CNBB e Ministério Público afirmam que "Big Brother Brasil" presta desserviço à sociedade

Na última quinta-feira (17) a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota condenando o "baixo nível moral" dos reality shows, considerando que tal categoria de programa é um mal na sociedade e deve ser superado. A nota pedia ao Ministério Público que tivesse "atenção mais acurada no acompanhamento e tomasse providências em relação à programação televisiva".

O MP apoiou a nota da CNBB e reforçou que o programa "Big Brother Brasil" da TV Globo "serve à deseducação, não estimula a criação, o principio da solidariedade e os valores éticos da pessoa e da família". Segundo o subprocurador-geral da República, Aurélio Rios, responsável interino pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), a classificação indicativa do programa é inadequada e deveria mudar de 14 para 18 anos.

A PFDC enviou à diretoria da Rede Globo uma recomendação para o cumprimento de direitos constitucionais, o envio foi feito em dezembro de 2010, após cerca de 400 denúncias sobre a 10º edição do programa, relacionadas à homofobia, apologia à violência, apelo sexual, horário inadequado e violação da dignidade humana. Segundo Rios a emissora tinha 30 dias para responder ao documento, mas até o momento não se manifestou. Em nota a TV Globo afirmou ao Portal Imprensa que "o ofício foi encaminhado dentro do prazo estipulado" e que a emissora "tem grande preocupação com o conteúdo que exibe, tanto que possui um documento de Princípios e Valores no Vídeo que serve de balizador para todas as suas equipes de criação e produção".

Em entrevista ao site Terra Magazine, o subprocurador lembra que é papel do MP acompanhar e fiscalizar os conteúdos de programas de televisão, principalmente se ferir direitos humanos, inclusive de crianças e adolescentes. "A emissora não respondeu e estamos reiterando o ofício, pedindo, inclusive, providências a respeito disso", reiterou Rios.

Questionado se o MP verificou mudanças no "BBB11" Rios responde que nada mudou. "Estamos confirmando uma dificuldade de entendimento em relação às emissoras, especialmente, as de canal aberto. Isso terá alguma conseqüência, pois temos um grupo específico que tem trabalhado com a questão da classificação indicativa". Para Rios não se trata de censura prévia, mas de cumprir a determinação legal de exibir o programa em um horário adequado. "São realmente programas de baixíssimo nível e sem nenhum conteúdo pedagógico", reforçou.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A resposta cristã ao cientificismo ateu

Primeira Pregação do Advento do Frei Raniero Cantalamessa ao Bento XVI no Advento de 2010



"QUANDO OLHO PARA O TEU CÉU, VEJO A LUA E AS ESTRELAS QUE CRIASTE: QUE COISA É O HOMEM?" (Sl 8, 4-5)


1. A tese do cientificismo ateu

As três meditações deste Advento 2010 querem ser uma pequena contribuição à necessidade da Igreja que levou o Santo Padre Bento XVI a instituir o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização e escolher este tema para a próxima Assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos: Nova evangelizatio ad cristianam fidem tradendam - A nova evangelização para a transmissão da fé cristã.

A intenção é identificar alguns "nós" ou obstáculos que fazem muitos países de antiga tradição cristã "refratários" à mensagem do Evangelho, como diz o Santo Padre no Motu Proprio com o qual estabeleceu o novo Conselho [1]. Os "nós" ou os desafios que eu pretendo levar em consideração e aos quais eu gostaria de tentar dar uma resposta de fé são o cientificismo, o secularismo e o racionalismo. O apóstolo Paulo classifica esses desafios como "as muralhas e fortalezas que se levantam contra o conhecimento de Deus" (cf. 2 Cor 10:4).

Nesta primeira meditação examinemos o cientificismo. Para compreender o que se entende com este termo podemos começar pela descrição feita por João Paulo II:

"Outro perigo a ser considerado é o cientificismo. Esta concepção filosófica recusa-se a admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências positivas, relegando para o âmbito da pura imaginação tanto o conhecimento religioso e teológico, como o saber ético e estético." [2].

Podemos resumir assim a tese principal desta corrente de pensamento:

Primeira tese. A ciência e, particularmente a cosmologia, a física e a biologia, são a única forma objetiva e séria de conhecimento da realidade. "As sociedades modernas, escreveu Monod, estão construídas sobre a ciência. Devem a ela sua riqueza, sua potência e a certeza de que a riqueza e o poder ainda serão maiores e mais acessíveis amanhã ao homem, se ele o quiser [...]. Equipadas com todo o poder, dotadas de toda riqueza que a ciência oferece, nossas sociedades ainda tentam viver e ensinar sistemas de valores, já prejudicados pela mesma ciência subjacente" [3].

Segunda tese. Esta forma de conhecimento é incompatível com a fé que se baseia em pressupostos que não são nem demonstráveis nem refutáveis

Nesta linha, o ateu militante R. Dawkins chega ao ponto de chamar de "analfabetos" os cientistas que se dizem crentes, esquecendo-se de tantos cientistas mais famosos do que ele que já se declararam e continuam declarando-se crentes.

Terceira tese. A ciência já demonstrou a falsidade ou, pelo menos, a inutilidade da hipótese de Deus. É a afirmação que recebeu ampla cobertura dos meios de comunicação do mundo meses atrás, à raiz de uma declaração do astrofísico inglês Stephen Hawking. Este, ao contrário do que já havia escrito anteriormente, sustenta em seu último livro The Grand Design, que o conhecimento advindo da física torna desnecessário acreditar numa divindade criadora do universo: "a criação espontânea é a razão pela qual as coisas existem".

Quarta tese. Quase a totalidade ou a grande maioria dos cientistas são ateus. Esta é a afirmação do ateísmo científico militante, que tem em Richard Dawkins, autor do livro God's Delusion (Deus, um delírio), seu mais ativo propagador.

Todos estes argumentos se revelam falsos, não do ponto de vista do raciocínio a priori ou da argumentação teológica e da fé, mas da própria análise dos resultados da ciência e das opiniões de vários cientistas ilustres do passado e do presente. Um cientista do calibre de Max Planck, o pai da física quântica, diz sobre a ciência aquilo que Agostinho, Tomás de Aquino, Pascal, Kierkegaard e outros já tinham afirmado sobre a razão: "A ciência leva a um ponto, além dele não pode mais dirigir" [4].

Não repetirei a refutação dos argumentos anunciados que já foi feita por cientistas e filósofos competentes. Cito, por exemplo, a crítica pontual de Roberto Timossi, no livro L'illusione dell'ateismo. Perché la scienza non nega Dio (A ilusão do ateísmo. Porque a ciência não nega Deus), que tem apresentação do cardeal Angelo Bagnasco (Edições São Paulo 2009). Limito-me a uma observação elementar. Na semana em que a mídia espalhou a declaração acima, de que a ciência tornou desnecessária a hipótese de um criador, eu me vi na necessidade, na homilia de domingo, de explicar a cristãos muito simples de uma cidade de Reatino onde estava o erro fundamental de cientistas e ateus e porque não deveriam ficar impressionados com a sensação despertada por essa declaração. Fiz isso com um exemplo que pode ser útil repetir aqui em um contexto tão diferente.

"Existem aves noturnas, como a coruja, cujos olhos são feitos para ver no escuro da noite, não de dia. A luz do sol cega. Estes pássaros sabem tudo e se movem com agilidade no mundo noturno, mas não são ninguém no mundo diurno. Vamos adotar, por um momento, o tipo de fábulas nas quais os animais falam uns com os outros. Suponha que uma águia faça amizade com uma família de corujas e converse com elas sobre o sol: como ele ilumina tudo, como, sem ele, tudo iria mergulhar no escuro e no frio, como seu próprio mundo noturno não existiria sem o sol. O que diria a coruja? "Você mente! Nunca vi o seu sol. Nos movemos muito bem e conseguimos alimento sem ele. Seu sol é uma hipótese inútil, não existe".

É exatamente isso que faz o cientista ateu quando diz: "Deus não existe". Julga um mundo que não conhece, aplica suas leis a um objeto que está fora do seu alcance. Para ver Deus é necessário olhar com uma perspectiva diferente, aventurar-se fora da noite. Neste sentido, ainda é válida a antiga afirmação do salmista: "Diz o insensato: Deus não existe".

2. Não ao cientificismo, sim à ciência

A rejeição do cientificismo não deve, naturalmente, levar à rejeição ou à desconfiança na ciência, assim como uma rejeição do racionalismo não nos leva a rejeitar a razão. Fazer o contrário seria um desserviço à fé, antes mesmo que à ciência. A história tem nos ensinado dolorosamente onde nos leva uma atitude como essa.

De uma atitude aberta e construtiva à ciência, nos deu um exemplo luminoso o novo beato John Henry Newman. Nove anos depois da publicação da obra de Darwin sobre a evolução das espécies, quando não poucas pessoas ao redor se mostravam turbadas e perplexas, ele assegurava, exprimindo um juízo que antecipava o juízo atual da Igreja sobre a não incompatibilidade da teoria com a fé católica. Vale a pena escutar novamente trechos centrais da sua carta ao canônico J. Walker, que ainda conservam grande parte de sua validade:

"Essa [a teoria de Darwin] não me assusta [...] Não me parece que se negue a criação pelo fato do Criador, milhões de anos atrás, ter imposto leis à matéria. Não negamos nem delimitamos o Criador por ter criado a ação autônoma que deu origem ao intelecto humano dotado quase de um talento criativo; menos ainda negamos ou delimitamos seu poder se acreditamos que Ele tenha assinado leis à matéria tais como plasmar e construir mediante a instrumentalidade cega através de eras inumeráveis o mundo como o vemos hoje [...]. A teoria do senhor Darwin não deve ser necessariamente ateia, que ela seja verdadeira ou não; pode simplesmente estar surgindo uma ideia mais alargada da Divina Presciência e Capacidade... À primeira vista, não vejo como a ‘evolução casual de seres orgânicos' seja incoerente com o plano divino - É casual para nós, não para Deus" [5].

Sua grande fé permitia que Newman visse com grande serenidade as descobertas científicas presentes ou futuras. "Quando uma enxurrada de fatos, reais ou presumidos, surge enquanto outros já se avizinham, todos os crentes, católicos ou não, se sentem chamados a examinar o significado destes fatos" [6]. Ele via nestas descobertas "uma conexão indireta com as opiniões religiosas". Um exemplo desta conexão, acredito eu, é o próprio fato de que, no mesmo ano em que Darwin elaborava a teoria da evolução das espécies, ele, independentemente, anunciava sua doutrina do "desenvolvimento da doutrina cristã". Referindo-se à analogia, neste ponto, entre a ordem natural e física e a moral, ele escreveu: "Como o Criador descansou no sétimo dia após o trabalho realizado e ainda hoje ele ‘continua agindo', assim ele comunicou de uma vez por todas o Credo no princípio e continua favorecendo seu desenvolvimento e garantindo seu crescimento" [7].

Da atitude nova e positiva da Igreja católica em relação à ciência é expressão concreta a Academia Pontifícia das Ciências, na qual cientistas eminentes de todo o mundo, crentes e não crentes, encontram-se para expor e debater suas ideias sobre problemas de interesse comum para a ciência e para a fé.

3. O homem para o universo ou o universo para o homem?

Mas, repito, não é minha intenção fazer aqui uma crítica geral do cientificismo. O que gostaria de destacar é um aspecto particular de algo que tem um impacto direto e decisivo sobre a evangelização: trata-se da posição que o homem ocupa na visão do cientificismo ateu.

Há agora uma corrida entre os cientistas não crentes, especialmente os biólogos e cosmólogos, que vai mais longe ao afirmar a total marginalização e insignificância do homem no universo e mesmo no grande mar da vida. "A antiga aliança é quebrada - Monod escreveu -; o homem finalmente se sabe sozinho na imensidão do Universo do qual emergiu por acaso. Seu dever, como seu destino, não está escrito em nenhum lugar" [8]. "Sempre pensei - afirma outro - ser insignificante. Conhecendo as dimensões do Universo não chego a compreender quanto o sou verdadeiramente... Somos somente um pouco de lama sobre um planeta que pertence ao sol" [9].

Blaise Pascal refutou de antemão esta tese com um argumento que ainda mantém seu vigor:

"O homem é apenas um caniço, o mais fraco da natureza; mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o aniquilar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas quando o universo o aniquilasse, o homem seria ainda mais nobre do que o que o mata, porque sabe que morre, e a superioridade que o universo tem sobre ele; o universo não sabe nada disso." [10].

A visão cientificista da realidade, junto com o homem, retira subitamente do centro do universo inclusive Cristo. Ele é reduzido, por usar uma expressão de M. Blondel, a "um acidente histórico, isolado do cosmo como um episódio postiço, um intruso ou um perdido na imensidão hostil e esmagadora do Universo" [11].

Esta visão do homem começa a ter reflexos práticos na cultura e na mentalidade. Explicam-se assim certos excessos do ecologismo que tendem a equiparar os direitos dos animais e até das plantas aos direitos do homem. É sabido que existem animais mais bem cuidados e alimentados que milhões de crianças. A influência é sentida inclusive no campo religioso. Há formas difusas de religiosidade nas quais o contato e a sintonia com a energia do cosmo tomaram o lugar do contato com Deus como caminho de salvação. Aquilo que Paulo dizia de Deus: "Pois nele vivemos, nos movemos e existimos" (At. 17, 28), diz aqui do cosmo material.

De certa forma, trata-se do retorno à era pré-cristã como regime de vida: Deus - universo - homem, à qual a Bíblia e o Cristianismo opuseram o regime: Deus - homem - universo. Uma das acusações mais violentas que o pagão Celso faz aos judeus e cristãos é a de dizer que "há Deus e, logo depois dele, nós, desde que fomos criados por ele à sua semelhança; tudo nos é subordinado: a terra, a água, o ar, as estrelas, tudo existe por nós e está ordenado ao nosso serviço" [12].

Mas há ainda uma profunda diferença: no pensamento antigo, principalmente o grego, o homem, mesmo subordinado ao universo, possui uma ‘dignidade altíssima', como mostrou a obra magistral de Max Pohlenz, "O homem grego" [13]; aqui parece que há prazer em deprimir o homem e tirar dele qualquer pretensão de superioridade sobre o resto da natureza. Mais que "humanismo ateu", pelo menos a partir deste ponto de vista, deveríamos falar, no meu modo de ver, de anti-humanismo, ou mesmo "desumanismo ateu".

Chegamos agora à visão cristã. Celso não estava errado em derivá-la da grande afirmação do Gênesis 1, 26 sobre o homem criado "à imagem e semelhança de Deus [14]. A visão bíblica encontra sua mais esplêndida expressão no Salmo 8:

"Quando olho para o teu céu, obra de tuas mãos,

vejo a lua e as estrelas que criaste:

Que coisa é o homem, para dele te lembrares,

que é o ser humano, para o visitares?

No entanto o fizeste só um pouco menor que um deus,

de glória e de honra o coroaste.

Tu o colocaste à frente das obras de tuas mãos.

Tudo puseste sob os seus pés".

A criação do homem à imagem de Deus possui implicações de certa forma chocantes sobre o conceito de homem que o debate atual nos empurra a trazer à luz. Tudo se baseia na revelação da Trindade trazida por Cristo. O homem é criado à imagem de Deus, o que significa que ele compartilha a essência íntima de Deus que é a relação amorosa entre Pai, Filho e Espírito Santo. É claro que existe uma lacuna ontológica entre Deus e a criatura. No entanto, pela graça, (jamais esqueçam esta afirmação!) esta lacuna é preenchida, de modo que é menos profunda do que entre o homem e o resto da criação.

Somente o homem, de fato, como uma pessoa capaz de relacionar-se, participa da dimensão pessoal e relacional de Deus, é sua imagem. O que significa que, na sua essência, embora a um nível de criatura, é o que, no nível incriado, são o Pai, o Filho e o Espírito Santo, em sua essência. A pessoa criada é "pessoa" propriamente por esse núcleo racional que a torna capaz de acolher o relacionamento que Deus quer estabelecer com ela e, ao mesmo tempo, torna-se um gerador de relações para os outros e o mundo.

4. A força da verdade

Vejamos como se poderia traduzir esta visão cristão da relação homem-universo no campo da evangelização. Primeiro, um prefácio. Resumindo o pensamento do mestre, um discípulo de Dionísio Areopagita enunciou esta grande verdade: "Não se deve refutar a opinião dos outros, nem se deve escrever contra uma opinião ou religião que não parece boa. Se deve escrever só a favor da verdade e não contra os outros" [15].

Não se pode absolutizar este princípio (às vezes pode ser útil e necessário refutar doutrinas falsas), mas é certo que a exposição positiva da verdade é, muitas vezes, mais eficaz que a refutação do erro contrário. É importante, creio, tomar em conta este critério na evangelização e especialmente no confronto com os três obstáculos mencionados anteriormente: cientificismo, secularismo e racionalismo. Na evangelização, é mais eficaz que a polêmica contra eles, a exposição pacífica da visão cristã, contando com a força inerente desta quando acompanhada de profunda convicção e feita, como incutia São Pedro, "com doçura e respeito" (1 Pe 3, 16).

A maior expressão da dignidade e da vocação do homem, segundo a visão cristã, foi cristalizada na doutrina da deificação do homem. Esta doutrina não teve tanta importância na Igreja Ortodoxa quanto na latina. Os Padres gregos, superando todos custos que o uso de pagão tinha acumulado sobre o conceito de deificação (theosis), fizeram dele o centro de sua espiritualidade. A teologia latina tem insistido menos sobre ela. "O propósito da vida para os cristãos gregos - lê-se no Dictionnaire des Spiritualitè - é a divinização, o que para os cristãos do Ocidente é a aquisição da santidade... O Verbo se fez carne, de acordo com os gregos, para devolver ao homem semelhança de Deus perdida em Adão e para divinizá-lo. Para os latinos, ele se fez homem para redimir a humanidade... e para pagar a dívida com a justiça de Deus" [16]. Poderíamos dizer, simplificando ao máximo, que a teologia latina, depois de Agostinho, insiste sobre o que Cristo veio tirar - o pecado -, e a grega insiste mais sobre o que ele veio dar aos homens: a imagem de Deus, o Espírito Santo e a vida divina.

Não se deve forçar demais esta oposição, como às vezes tendem a fazer alguns autores ortodoxos. A espiritualidade latina, por vezes, expressa o mesmo ideal ainda que evite o termo divinização, que, é bom lembrar, é estranho à linguagem bíblica. Na liturgia das horas da noite de Natal, vamos ouvir a vibrante exortação de São Leão Magno, que expressa a mesma visão da vocação cristã: "Reconhece, ó cristão, a tua dignidade. Uma vez constituído participante da natureza divina, não penses em voltar às antigas misérias da tua vida passada. Lembra-te de que cabeça e de que corpo és membro" [17].

Infelizmente, alguns autores ortodoxos mantiveram-se firmes à controvérsia do século XIV, entre Gregório Palamas e Barlaam, e parecem ignorar a rica tradição mística latina. A doutrina de São João da Cruz, por exemplo, de que os cristãos, redimidos por Cristo e tornados filhos no Filho, estão imersos no fluxo das operações trinitárias e participam da vida íntima de Deus não é menos elevada que a da divinização, ainda que se expresse em termos diferentes. Também a doutrina sobre os dons da inteligência e da sabedoria do Espírito Santo, tão cara a São Boaventura e autores medievais, estava animada pelo mesma inspiração mística.

Não pode, contudo, deixar de reconhecer que a espiritualidade ortodoxa tem algo a ensinar sobre este ponto ao resto da cristandade, à teologia protestante ainda mais do que à teologia católica. Se existe realmente alguma coisa verdadeiramente oposta à visão ortodoxa do cristão deficado pela graça é a concepção protestante, particularmente a luterana, da justificação extrínseca e legal de que o homem redimido é, "ao mesmo tempo, justo e pecador", pecador em si mesmo, justo diante de Deus.

Acima de tudo, podemos aprender com a tradição oriental a não reservar esse ideal sublime da vida cristã a uma elite espiritual chamada a percorrer os caminhos da mística, mas oferecê-lo a todos os batizados, torná-lo objeto de catequese para o povo, de formação religiosa nos seminários e noviciados. Se volto a pensar nos meus anos de formação, me lembro de ter visto uma ênfase quase exclusiva na ascese que centrava tudo na correção de vícios e na aquisição da virtude. Quando perguntado pelos discípulos sobre o objetivo final da vida cristã, um santo russo, São Serafim de Sarov, respondeu sem hesitação: "A verdadeira finalidade da vida cristã é a aquisição do Espírito Santo de Deus. Quanto à oração, o jejum, vigílias, esmolas e outras boas obras feitas em nome de Cristo, são apenas meios para adquirir o Espírito Santo" [18].

5. "Tudo foi feito por meio dele"

O Natal é a ocasião ideal para voltar a propor a nós mesmos e aos demais este ideal, patrimônio comum da cristandade. É da encarnação do Verbo que os Padres gregos derivam a própria possibilidade da divinização. São Atanásio não se cansa de repetir: "O Verbo se fez homem para que pudéssemos nos tornar Deus" [19]. "Ele se encarnou e o homem tornou-se Deus, porque se uniu a Deus", escreve por sua vez São Gregório Nazianzeno [20]. Com Cristo, é restaurado ou trazido à luz aquele ser "à imagem de Deus" que é a base da superioridade do homem sobre o restante da criação.

Dizia antes como a marginalização do homem traz consigo automaticamente a marginalização de Cristo do universo e da história. Ainda sobre este ponto de vista o Natal é a antítese mais radical da visão cientificista. Sobre isso, escutaremos proclamar solenemente: "Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito de tudo o que existe" (Jo. 1,3); "pois é nele que foram criadas todas as coisas, tudo foi criado através dele e para ele" (Col 1,16). A Igreja assumiu essa revelação e nos faz repetir no Credo: "Per quem omnia facta sunt": Por meio dele tudo foi criado.

Ouvindo estas palavras - enquanto todos à nossa volta que não fazem mais que repetir "O mundo se explica sozinho, sem necessidade da hipótese de um criador", ou "somos frutos do acaso e da necessidade" - se dá, sem dúvida, um choque, mas é mais fácil que se produza um conversão e floresça a fé depois de um choque como esse que com uma longa argumentação apologética. A questão crucial é: seremos capazes, nós que aspiramos reevangelizar o mundo, de expandir nossa fé a essa dimensão? Nós realmente acreditamos, de todo o coração, que "todas as coisas foram feitas por meio de Cristo e em vista de Cristo"?

Em seu livro Introdução ao Cristianismo, há muitos anos, Santo Padre, escreveu:

"A segunda parte principal do Credo coloca-nos propriamente diante do elemento cristão fundamental: a crença de que o homem Jesus, um indivíduo executado na Palestina pelo ano 30, é o ‘Cristo' (ungido, escolhido) de Deus, e mais: é o próprio Filho de Deus, centro e opção de toda a história humana... Contudo, o primeiro impacto desta realidade causa escândalo ao pensamento humano: Não nos tornamos com isto vítimas de um tremendo positivismo? Será razoável agarrar-nos à palhinha de um único acontecimento histórico? Poderemos ousar fundamentar a nossa existência inteira, e até a história toda, sobre o que não passa de pobre palha de um acontecimento qualquer a boiar no grande oceano da história?" [21].

Para estas questões, Santo Padre, nós vamos responder sem hesitar, como faz o senhor nesse livro e como não se cansa de repetir hoje, na sua qualidade de Sumo Pontífice: Sim, é possível, é libertador e alegre. Não por nossas forças, mas pelo dom inestimável da fé recebemos e pela qual damos graças infinitas a Deus.


* * *

[1] Bento XVI, Motu Proprio "Ubicunque et semper".

[2] João Paulo II, Parole sull'uomo, Rizzoli, Milano 2002, p. 443; cf. anche Enc. "Fides et ratio", n. 88.

[3] J. Monod, Il caso e la necessità, Mondadori, Milano, 1970, pag. 136-7. [Ed. original francesa: Jacques Monod, Le Hazard et la necessité. Essai sur la philosophie naturelle de la biologie moderne. Seuil, Paris 1970; English trans. Chance and Necessity. An Essay on the Natural Philosophy of Modern Biology, Vintage 1971].

[4] M. Planck, O conhecimento do mundo físico, (cit. por Timossi, op.cit. p. 160).

[5] J.H. Newman, in The Letters and Diaries, vol. XXIV, Oxford 1973, pp. 77 s.

[6] J.H. Newman, Apologia pro vita sua, Brescia 1982, p.277.

[7] J.H. Newman, Lo sviluppo della dottrina cristiana, Bologna 1967.

[8] Monod, op. cit. p. 136.

[9] P. Atkins, citado por Timossi, op. cit. p. 482.

[10] B. Pascal, Pensamentos.

[11] M. Blondel et A. Valensin, Correspondance, Aubier, Paris, 1957, p. 47.

[12] In Origene, Contra Celsum, IV, 23 (SCh 136, p.238; cf. IV, 74 (ib. p. 366).

[13] Cf. M. Pohlenz, O homem grego, Firenze 1962.

[14] In Origene, op. cit., IV, 30 (SCh 136, p. 254).

[15] Scolii a Dionísio Areopagita in PG 4, 536; cf. Dionísio Areopagita, Lettera VI (PG, 3, 1077).

[16] G. Bardy, in Dct. Spir., III, col. 1389 s.

[17] São Leão Magno, Sermo 21, 3: CCL 138, 88 (PL 54, 192-193).

[18] Diálogo com Motovilov, em Irina Gorainoff, Serafino di Sarov, Gribaudi, Turin 1981. p. 156.

[19] S. Atanasio, J. Quasten, Patrologia, II, 22-83; Obras: PG 25-28.

[20] S. Gregorio Nazianzeno, Discursos teológicos, III, 19 (PG 36, 100A).

[21] J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, Herder, São Paulo, 1970. Versão brasileira do Pe. José Wisniewski Filho, S.V.D., do original alemão Einführung in das Christentum

Diálogo (Dom Hélder Câmara)

"Meus queridos amigos, há temas aos quais é preciso voltar sempre.

Um deles é a dificuldade e a necessidade importantíssima de AUTÊNTICO DIÁLOGO.

Recordemos uma verdade verdadeiríssima:

Se discordas de mim, tu me enriqueces.
Se és sincero e buscas a verdade e tentas encontrá-la como podes, ganharás tendo a honestidade e a modéstia de completar teu pensamento com o pensamento, mesmo de pessoas, que te pareçam muito menos inteligentes e cultas do que tu.

Um dos argumentos mais sérios que nos leva a escutar quem nos fala e, até a ouvir, quem discorda de nós, é saber que Deus fez a inteligência humana incapaz de abraçar o erro total.

Se um sistema filosófico ou econômico, social, um sistema qualquer, for erro de cima a baixo e de lado a lado não há nem perigo de que a inteligência do homem parta para o erro total.

Se a inteligência avança, podes ter certeza de que, no meio dos erros, há verdades prisioneiras.

Ora, quem sabe, quem discorda de mim pode ter descoberto sementes de verdade que me escaparam.

Quem pode pretender ser dono da verdade e ter o monopólio do Espírito Santo.

Feliz de quem se acostuma a ouvir com ouvidos de ouvir porque também é um perigo não ter idéias firmes, ser um cabeça de vento que gira pra onde o vento sopra.

Ótimo é ter idéias, ter princípios, ter opções, prioridades. Mas, permanecer de verdade e não só de faz de conta aberto a ouvir e a aceitar tudo o que é válido.

Atenção, amigos, nós todos precisamos de matricular-nos na escola do diálogo e começar aprendendo de verdade a ouvir.

E fiquemos alertas para a tentação de achar formidáveis, geniais, os que falam de acordo com o que nós pensamos.

E de queimar como quadrados, caretas, os que têm a ousadia de discordar de nós. Adotemos como um de nossos lemas, queridos, se discordas de mim, tu me enriqueces."

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Calem a boca, Nordestinos

* Abro espaço neste meu blog para este texto muito bom de José Barbosa Junior. Leiam até o fim.
Se você tem algum texto que gostaria que fosse aqui publicado, me envie.
Abração!




Calem a boca, Nordestinos!

 
Por José Barbosa Junior


 A  eleição  de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o
 que  há  de  pior  no  Brasil  em  relação  aos  preconceitos.  Sejam eles
 religiosos,  partidários,  regionais,  foram  lançados  à  luz  de maneira
 violenta, sádica e contraditória.

 Já  escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia
 me  envergonho  mais  do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e
 dos  pilantras  profissionais  de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra
 Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que
 fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra… outros pastores se
 venderam  vergonhosamente  para  apoiarem a candidata petista. A luta pelo
 poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.

 Mas  o  que  me  motivou  a  escrever  este texto foi a celeuma causada na
 internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações
 da  paulista,  estudante  de  Direito,  Mayara Petruso, alavancada por uma
 declaração  no  twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate
 um nordestino afogado!”.

 Infelizmente,  Mayara  não foi a única. Vários outros “brasileiros” também
 passaram  a  agredir  os nordestinos, revoltados com o resultado final das
 eleições,  que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui
 corrigido  por  muitos  e  convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do
 nosso país.

 E  fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em
 suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!

 Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!

 Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?

 Ou  vocês  pensam  que são os bons só porque deram à literatura brasileira
 nomes  como  o  do  alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do
 Rego  e  Ariano  Suassuna,  dos  pernambucanos  João Cabral de Melo Neto e
 Manuel  Bandeira,  ou  então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa
 Rachel de Queiroz?

 Só  porque  o  Maranhão  nos  deu  Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur
 Azevedo,  Ferreira  Gullar,  José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos
 presenteou  com  José  de  Alencar  e Patativa do Assaré e a Bahia em seus
 encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?

 Isso  sem  falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos
 do  genial   Chico  Anysio,  do  eterno  trapalhão  Renato  Aragão, de Tom
 Cavalcante  e  até  mesmo  do  palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado
 federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!

 E  já  que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores
 como  os  cearenses  José  Wilker,  Luiza  Tomé,  Milton Moraes e Emiliano
 Queiróz,  o  inesquecível  Dirceu  Borboleta,  ou  ainda do paraibano José
 Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.

 Ah!  E  ainda  os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado
 pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.

 Música?  Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer,
 povo analfabeto e sem cultura…

 Ou   pensam  que  teremos  que  aceitar  vocês  por  causa  da  aterradora
 simplicidade  e  majestade  de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas
 canções  de  Nando  Cordel  e  dos  seus  conterrâneos pernambucanos Alceu
 Valença,  Dominguinhos,  Geraldo  Azevedo  e  Lenine?  Isso  sem falar nos
 paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…

 E  Não  poderia  deixar  de lembrar também da genial família Caymmi e suas
 melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…


 
Ah! Nordestinos…

 Além  de  tudo  isso,  vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que
 nasceu  o  mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força
 opressora  do  branco  que  sabe o que é melhor para o nosso país? Por que
 vocês  foram  nos  dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na
 sofrida e linda história do seu povo?

 Um  conselho,  pobres  nordestinos.  Vocês deveriam aprender conosco, povo
 civilizado  do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes
 ensinar.

 Por  que  não  aprendem  conosco  os  batidões  do  funk carioca? Deveriam
 aprender  e  ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente
 chamadas  de  “cachorras”.  Além  disso, deveriam aprender também muito da
 poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim,
 porque  melhor  que  a  asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e
 rolar bundalelê!

 Por  que  não  aprendem  do  pagode  gostoso  de Netinho de Paula? E ainda
 poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no
 caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!

 Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso
 do  Sul,  que  lhes  exporte  o  sertanejo  universitário… coisa da melhor
 qualidade!

 Ah!  E  sem  falar  numa  coisa  que  vocês tem que aprender conosco, povo
 civilizado,  branco  e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil!
 Vocês  não  sabem,  mas  na  verdade não está em jogo se é ou não trabalho
 infantil  (isso  pouco  vale  pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO
 esse  trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas
 crianças  não  podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso
 as  afasta  da  escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é
 porque  ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo
 e  sustentar  os  pais,  ou  ser  atriz  mirim ou cantora e ter a sua vida
 totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso…
 mas  o  que  importa  mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de
 Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!


 Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!


 Calem  a  boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a
 tantos  absurdos  de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado
 por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das
 mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.

 Calem  a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao
 vento.  Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção
 desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.

 Calem  a  boca,  porque  a  história  desse país responderá por si mesma a
 importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na
 música,  nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu
 povo  falou  mais  alto  e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é,
 antes de tudo, um forte!”

 Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos
 irmãos nordestinos!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

De novo a Feira do Livro

Visitei ontem (04/10/2010)  à tardinha mais uma vez a Feira do Livro de Porto Alegre.  Estava um tempo para chuva, o que eu adoro muito. Aquele cheirinho de chuva subindo da terra...inexplicável. Esse clima todo impulsiona em mim uma certa dose de nostalgia.  Interessante sobre a nostalgia é que ela aumenta ao entrar em contato com sua causa e não diminui como o sentimento da saudade. Exemplo: se alguém sente saudades ou falta de um conhecido, este sentimento cessa ao se reencontrar a pessoa, com a nostalgia é exatamente o oposto, ao reencontrar um amigo que gostava de brincar, este sentimento nostálgico irá se alimentar e não diminuir como a saudade.
Senti nostalgia ao reencontrar os livros!

VISITE A 56ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Visitando a Feira do Livro Porto Alegre 2010

Estive sexta passada (29/10)  na Feira do Livro de Porto Alegre, que está em sua 56ª edição. Passei por diversas bancas de livros, reencontrei pessoas amigas, conversamos sobre livros e leituras.
Percorrendo por entres tantas pessoas e bancas, manuseando um livro e outro, cheguei a triste conclusão do quanto tenho lido pouco. Existem tantas leituras interessantes e eu não consigo dar conta nem dos livros básicos da faculdade. Estamos vivendo numa realidade de corrida contra o tempo, e é esse um dos fatores que me impedem mais leituras. Sinto saudade do meu tempo de infância, quando na escola e em casa, eu era um leitor assíduo. Tanto que na escola a professora Eloína Rodrigues chegou a chamar minha mãe para conversar, porque eu estava lendo muito, inclusive nos momentos de recreio. Pois bem, foi com a mesma professora Eloína, e com colegas, que fui pela primeira vez à Feira do Livro de Porto Alegre. Lembro com carinho e muita saudade da leitura, dentro das atividades para a visita à Feira, de um trabalho que tive que fazer de um livro que acabei escolhendo, entre tantas opções: Maneco Caneco Chapéu de Funil. Trata-se da estória de vários objetos cansados de não fazer nada, que saem em busca de aventura.



Entre tantas lembranças que me veio, uma outra foi a da leitura de um livro de Charles Kiefer no ensino médio: Caminhando na Chuva. Uma história sem fim, na qual o leitor se delicia com um banquete de belas palavras que nos tocam e nos fazem entrar totalmente no clima do livro. Charles Kiefer realmente não escreveu o final do livro pra deixar um vazio ainda maior na cabeça do leitor. Mas no meu caso a professora de literatura, Nancy, pediu para eu escrever um final para esse livro e depois de ler o que escrevi, sugeriu que eu participasse de oficinas de literatura pois via em mim um futuro escritor. Pena que não segui o conselho dela... Voltando ao Caminhando na Chuva de Kiefer, o livro trata da história de um homem, que teve uma infância muito difícil, seus pais eram pobres e ele sofria muito de preconceito, principalmente depois quando conseguiu bolsa em uma escola particular, apesar de tudo ele era feliz, vivia no sítio de seu avô; porém este era muito machista e conservador, assim como o resto das pessoas naquela época. Por isso que desde criança gostava de caminhar pelas ruas da cidade em dia de chuva, pois estava sozinho, podia demonstrar seus sentimentos com a intensidade que desejasse, ninguém ia repreendê-lo.Quando tinha 14 anos, e que tinha acabado de chegar na nova escola, ele conhceu uma menina, se apaixonou, ela também, porém ele era pobre e ela era rica, e novamente o preconceito.Depois de acabarem o colegial, aquela paixão ainda persistia, e o pai da menina mandou-a a Porto Alegre para estudar.E a personagem principal sem nome, estava ali, cheio de dúvidas e tristeza, ele resolve então seguir o caminho da esperança e vai à Porto Alegre, pois algum dia ele ainda vai encontrar ela, vai ter um bom emprego e eles vão para Paris viver sua paixão sem preconceito.
A Feira do Livro me trouxe muitos sentimentos e lembranças que me emocionam e animam e também me dão vontade de ler todos os livros, pena que não há como... 
Uma outra constatação: muitos livros a preços bem em conta, mas no geral ainda os preços bem altos. 
Ainda registro meu apoio a AGEI: Associação para autores que publicam seus livros de forma independente, sem o intermédio de editoras. 

E você? Já foi à Feira do Livro? O que tem a contar sobre sua experiência com livros, leituras e a Feira do Livro de Porto Alegre ou de outras cidades? Escreva e envie para este blog. Farei questão de publicar sua partilha.

Abração!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Pacote de Biscoitos

“ Uma moça estava a espera de seu vôo, na sala de embarque de um grande aeroporto.

Como ela deveria esperar por muitas horas, resolveu comprar um livro para passar o tempo. Comprou, também, um pacote de biscoitos.


 Sentou-se numa poltrona, na sala Vip do aeroporto, para que pudesse descansar e ler em paz.

 Ao lado da poltrona onde estava o saco de biscoitos sentou-se um homem, que abriu uma revista e começou a ler.

  Quando ela pegou
o primeiro biscoito,
o homem também pegou um.
Sentiu-se indignada mas não disse nada.
Apenas pensou:
“Mas que cara de pau! Se eu estivesse
mais disposta
lhe daria um soco
no olho para que ele nunca mais esquecesse
desse
atrevimento!”

 
A cada biscoito que ela pegava, o homem também pegava um. Aquilo foi deixando-a indignada, mas não conseguia reagir.

Quando restava apenas um biscoito, ela pensou:
“ah... o que esse abusado vai fazer agora?”
Então, o homem dividiu o último biscoito ao meio, deixando a outra metade para ela.

 
Ah! Aquilo era demais!
Ela estava bufando de raiva!

Então, ela pegou seu livro,
pegou suas coisas e
se dirigiu ao
local de embarque.

 
Quando ela sentou-se confortavelmente numa poltrona,
já no interior do avião, olhou para dentro da bolsa para pegar seus óculos e, para sua surpresa, seu pacote de biscoitos estava lá,
ainda intacto, fechadinho!

Ela sentiu tanta vergonha! Percebeu então que a errada era ela...
Ela havia se esquecido que seus biscoitos estavam guardados em sua bolsa.

O homem havia dividido os biscoitos dele sem se sentir indignado, nervoso ou revoltado.





Enquanto ela tinha ficado muito transtornada, pensando estar dividindo o biscoito dela
com ele.

E já não havia mais tempo para se explicar...
nem pedir desculpas!”


Existem 4 coisas que não se recuperam...

a pedra...
...depois de atirada!

a palavra...
...depois de proferida!

A ocasião...
...depois de perdida!


O tempo...
...depois de passado!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

EXIGÊNCIAS DA VIDA MODERNA

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro.
E uma banana pelo potássio.
E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão). Cada dia uma Aspirina, previne infarto. Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso. Um copo de cerveja, para... não lembro bem para o que, mas faz bem. O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente. E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia...
E não esqueça de escovar os dentes depois de comer. Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax. Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma.
Sobram três, desde que você não pegue trânsito. As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo - e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação. Na minha conta são 29 horas por dia.
A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo! Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes. Chame os amigos junto com os seus pais. Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher... na sua cama.
Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora tenho que ir.
É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro.
E já que vou, levo um jornal... Tchau!
Viva a vida com bom humor!!!
(Luís Fernando Veríssimo)